O uso de maconha e a permissividade dos pais e da sociedade

Entrevista dada à Revista Família Cristã on line (www.fc.org.br)

- Segundo Pesquisa realizada pelo Centro de Integração Empresa Escola, aumentou o número de pais que permitem o uso da maconha dentro de casa? Quais são os dados atuais e os anteriores para que possamos fazer uma comparação?
Trata-se de uma mudança de atitude que permeia a sociedade através de diversos mecanismos. Se questionarmos diretamente a atitude dos pais sobre o uso de maconha pelos seus filhos, uma parte será contrária outra poderá ser a favor. Os primeiros podem estar influenciados por valores morais, sociais, religiosos, ou conhecerem melhor o assunto, não se deixando levar por informações unicamente baseadas em ideologia. O segundo grupo pode estar influenciado por experiências passadas de uso – grande parte dos pais de hoje usaram maconha na década de 70, e hoje têm uma vida normal – logo acreditam que se trata de um momento passageiro e alguns até atribuem o comportamento à adolescência normal.

Façamos uma reflexão sobre o grupo de pais mais permissivos ao uso: (1) É sabido de todos nós, porque está registrado em compêndios e revistas especializadas bem como na mídia geral, que a maconha de hoje NÃO é a mesma de décadas atrás. Enquanto se tinha 1% de THC (a substância química presente na maconha que causa a dependência), hoje a maconha tem 5 % podendo em algumas preparações chegar a 20%.

Fumar um baseado de maconha significaria, atualmente, fumar 5 baseados ou mais, no passado. Este fato reflete nos problemas relacionados ao uso de maconha. Até pouco tempo era muito raro quem procurava tratamento para maconha, entretanto, hoje a demanda está a um nível que justificou a abertura de um ambulatório específico para maconha na UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da UNIFESP/ Escola Paulista de Medicina).

(2) Não há mais dúvida que maconha causa dependência e isso pode ser observado pelo aumento do consumo quer seja em quantidade de pessoas que usam quer seja em quantidade de THC aspirada. Além da dependência, existe uma clara e demonstrável deficiência cognitiva (da atenção, concentração, armazenamento de informação) entre os usuários de maconha. Há uma correlação positiva entre surtos psicóticos e uso de maconha – embora ainda não tenha estudo que nos afirme a relação de causa – efeito, sabemos que há a correlação: quem usa maconha, mais freqüentemente, apresenta surto psicótico (apresenta alteração do sono, ficam agitados ou agressivos, delirantes – achando que alguém os persegue, ouvem vozes inexistentes, entre outros sintomas.).

(3) Existe, ainda, influenciando a atitude positiva dos pais, a disponibilidade da droga. É muito fácil conseguir maconha, hoje. Em pesquisa aqui na UNIFESP, o CEBRID relata que 69,5% dos jovens do sexo masculino entre 12 e 17 anos afirmam ser muito fácil conseguir maconha se o desejarem. Na faixa etária entre 18 e 24 anos esta porcentagem salta para 74,9%.

Essa disponibilidade tão alta além de aumentar o número de pessoas que tem contato com a droga, cria a imagem de que “TODO MUNDO USA” – o que estatisticamente não é verdade: a facilidade em conseguir não implica necessariamente em usar. Além disso, cria -se a confusão entre o que está se tornando comum com o que é normal. Por mais comum que fique o uso de maconha ele não é NORMAL. Não deveria ser encarado pelos pais como tal, e nem como um comportamento passageiro. Felizmente, para a maioria das pessoas, o uso experimental não se torna em dependência e problema, mas não podemos prever quem serão parte de um ou de outro grupo.

- O que leva os pais a permitirem o uso da maconha dentro de casa e por que aumentou o número de pais agindo desta forma?
É difícil afirmar com certeza o que leva aos pais agirem assim, entretanto podemos levantar algumas hipóteses.

(1) como a disponibilidade de drogas está tão aumentada, é quase inevitável que hora ou outra os adolescentes terão contato com a droga. Portanto, se tiverem, que seja debaixo dos olhos dos pais.

(2) Este pensamento merece uma reflexão: o papel de pai é diferente do papel de amigo, do papel de amante, do papel de esposo, do papel profissional. Desempenhamos na vida, como definiu um pesquisador chamado Moreno, “cachos de papéis” que nada mais é que a interação dinâmica entre todos os papéis que nos coube. Por exemplo, neste momento despenho um papel de pesquisador e professor que dá uma entrevista, depois desempenharei um papel de terapeuta e ao final do dia desempenharei o papel de esposo, pai…

O papel do pai é complicado, mas fundamental. Pai não é amiguinho de filho, e se desejar sê-lo poderá falhar como pai. Cabe ao pai a compreensão; o apoio; a disponibilidade – com quem o filho pode contar nas horas difíceis; o provedor das necessidades; e o mais difícil deles – colocar limite! Mas como acolher e colocar limite simultaneamente? É necessário antes desconstruir a imagem de que acolher é concordar e colocar limite, discordar. É possível acolher o jovem sem compactuar com o uso de droga dele – é o que terapeutas fazem: em nenhum momento compactuam com o uso de droga, e o adolescente sabe disso! Fazemos exames de detecção de droga, discutimos estratégias de se manter sem ela, etc. E acolhemos! Se o paciente precisar de alguma coisa poderá procurar seu terapeuta e não receberá crítica – será ouvido e ajudado a resolver o problema sem a busca de um culpado para o que aconteceu.

(3) Outra hipótese é o medo de que o filho se exponha a perigo em ambientes de tráfico. Preocupação extremamente legítima, mas que não justifica compactuar com o uso de droga do filho (mensagem subliminar ao se aprovar o uso em casa). O tratamento, a informação, e a abstinência afastarão tal perigo. Esses são os melhores caminhos. Tentar controlar o que não está no nosso controle é desgastante para quem tenta controlar e para quem finge ser controlado. Existem pesquisas que mostram que o pai que sabe aonde, com quê e o quê fazem seus filhos, estes estão mais protegidos do uso de droga. Achar que deixar o filho usar droga em casa é controle, configura um grande equívoco: é a expressão de um falso controle.

- Qual o perfil dessas famílias e o reflexo dessa mudança na postura dos pais em relação aos filhos? Aumentou também o número de dependência química nos jovens?
Uma comparação entre os adolescentes que experimentaram drogas realizadas nas Escolas Estaduais e Privadas de dez capitais Brasileiras, pelo CEBRID / UNIFESP/EPM, mostrou que em dez anos (1987 e 1997) mostrou aumento do uso na vida de maconha (uso experimental) aumentou em TODAS as dez capitais estudas sendo que na pesquisa de 1997 a maconha superou os solventes como droga de maior uso na vida. O mais preocupante, entretanto, é o registro de que o USO FREQUENTE (uso de seis vezes ou mais no mês) e o USO PESADO (uso de vinte vezes ou mais no mês) também cresceram para a maconha de maneira estatisticamente significante.

É claro que não podemos atribuir tal aumento do consumo exclusivamente a esta atitude permissiva dos pais e da sociedade. Seria necessário um outro tipo de estudo para responder o quanto cada fator contribuiu para o aumento do consumo. Vários fatores devem ter contribuído, mas podemos inferir sem medo de cometer grandes distorções, que a permissividade, em maior ou menor grau contribuiu para este quadro.

- Como os pais podem ajudar os filhos a superar o vício?
Dependência talvez seja um termo mais adequado, menos estigmatizante e reflete o caráter da doença “Dependência Química” (não no sentido unicamente biológico, mas biopsicossocial). Não existe uma fórmula que funcione para todos os casos. Assim como, não existe um tratamento único que se obtenha sucesso para todo e qualquer dependente químico. O bom médico vai parear a necessidade do paciente com os tratamentos disponíveis e testados. Mas algumas linhas gerais ajudam a todos:

(1) NÃO CONFRONTAR DIRETAMENTE.
(2) NÃO ACUSAR OU PROCURAR CULPADOS.
(3) MOSTRAR -SE AO LADO DO ADOLESCENTE, SEM COMPACTUAR COM O USO, NA BUSCA DE UMA RESOLUÇÃO PARA O PROBLEMA.
(3) AJUDAR O ADOLESCENTE A PERCEBER O BENEFÍCIO QUE ELE TERÁ COM A ABSTINÊNCIA OU COM O TRATAMENTO. SE ELE ACHA QUE PRECISA PARAR POR IMPOSIÇÃO SOCIAL, OU PARA AGRADAR ESTE OU AQUELE, A TENTATIVA PODE FALHAR.
(4) NÃO USAR DA CULPA COMO ARMA PARA CONVENCIMENTO – ISSO PODE ATÉ FUNCIONAR UM PERÍODO, MAS NÃO SE SUSTENTA. ALIÁS, FUJA DO MECANISMO DA CULPA, NO QUAL SE ESTABELECE UMA TROCA DE ACUSAÇÕES PARA SE DETERMINAR O MAIS CULPADO E O MAIS ATINGIDO: O PROBLEMA CONTINUA SEM SOLUÇÃO.
(5) JAMAIS ESQUECER QUE SE TRATA DE UMA DIFICULDADE E NÃO UM DEFEITO. LEMBRAR, QUE PARA LIDAR COM DIFICULDADES COMO ESSA, EXISTEM EQUIPES DE PSICÓLOGOS, ENFERMEIROS, ASSISTENTES SOCIAIS, PSIQUIATRAS, TERAPEUTAS OCUPACIONAIS, ETC. NÃO TENTE RESOLVER TUDO SOZINHO. PROCURE AJUDA – TODO CIDADÃO TEM DIREITO DE SER ASSISTIDO EM CASO DE DOENÇAS BIOLÓGICAS, PSÍQUICAS ETC.

- Qual a porcentagem de jovens que enfrentam problemas com álcool e drogas hoje? O que leva os jovens a caírem nas drogas e como a sociedade poderia agir na prevenção deste mal.
A primeira questão é bem mais simples para responder:

Sabemos que cerca de 11% da população masculina é dependente de álcool. As mulheres são cerca de 3%, mas alguns estudos mostram porcentagem maior.

Cerca de 10% da população masculina é dependente de tabaco. 9% das mulheres.

Como se percebe com os dados acima, os grandes vilões são ainda o álcool e o tabaco – o que justificaria a intervenção Estatal na elaboração de uma política pública que restringisse acesso a bebida, delimitasse pontos de vendas, estabelecesse programas educacionais baseados em evidencias científicas e que tenham funcionado em outros países, limitar o acesso do jovem à bebida, proibir propaganda, entre outras ações. As pesquisas mostram que estas ações políticas são as mais efetivas. Qualquer outro programa de Prevenção tem uma ação limitada, enquanto o álcool continua tão barato, tão acessível, tão estimulado em propagandas de altíssima qualidade, com as quais fica difícil concorrer. Nenhum panfleto, nenhuma cartilha, nenhum programa educacional terá o impacto destas propagandas!

A segunda questão é bem mais complexa e não poderemos esgotar aqui. O que leva os jovens a usarem drogas é um conjunto de fatores denominados “fatores de risco”. A combinação destes fatores ou a junção de alguns deles tornam uma pessoa mais ou menos propensa ao uso.

Fator de risco é qualquer fator que contribua em maior ou menor grau para aumentar a probabilidade de uso de droga. Não existe um fator único DETERMINANTE DO USO. Assim, para cada compartimento da vida (denominado cientificamente de domínios da vida) há fatores de risco ou não, além de fatores protetores do uso.

Entendem-se como domínios da vida: o individual (predisposição psicológica, genética, presença de alguma doença etc); o de pares (os amigos e pessoas de convívio próximo – o que pensam sobre o uso de droga, quais ambientes freqüentam, etc); o domínio familiar (como está estruturada a família e o seu funcionamento – se os papéis estão claros, definidos, por exemplo, o pai que realmente cumpre sua função de pai); o domínio social (a disponibilidade de droga, a facilidade em se obter, a falta de fiscalização das leis que já existem, o número de pontos de vendas, etc). A combinação dos fatores de riscos nestes diversos níveis vai tornar uma pessoa mais ou menos predisponente a se envolver com droga.

Dr. Cláudio Jerônimo da Silva
UNIAD/Depto de Psiquiatria
UNIFESP/EPM

Sobre ABVN

Associação Beneficente Vida Nova.
Esta entrada foi publicada em Artigos. Adicione o link permanenteaos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>