Consumo lícito: Álcool é porta de entrada para outras drogas

Presidente de uma das mais respeitadas instituições de estudo de entopercentes do País afirma que o alcoolismo ainda é o vício mais problemático.

Maconha, cocaína, crack, ecstasy ou oxi. Para o psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), Carlos Salgado, todas essas drogas ilícitas geram problemas gravíssimos para a população brasileira e merecem atenção do poder público.Nenhuma delas, no entanto, supera o estrago provocado pelo álcool. De acordo com Salgado, o alcoolismo aflige hoje 12% dos brasileiros e é uma doença que desafia as autoridades sanitárias há décadas. Além disso, o consumo de álcool, aliado ao de tabaco, é muitas vezes a porta de entrada para drogas ilícitas. ”Droga nova não falta nunca. O que falta na verdade é uma atitude de garantir a atenção na saúde mental, inclusive ao dependente químico”, reivindica o especialista.

Qual droga é a mais problemática hoje no Brasil? Sem dúvida é o álcool, especialmente para os jovens. Quem usa álcool ou tabaco cedo na vida tem uma chance cinco vezes maior de vir a usar drogas ilícitas na vida adulta. O risco que o indivíduo corre é de abrir a grande porta de entrada, que são as lícitas, e depois ter muita dificuldade de fechar as portas das ilícitas.

Metade da população brasileira consome álcool. Quanto mais disponíveis estão as drogas, mais são utilizadas. Disponibilidade tem a ver com preço e aceitação social. O álcool e tabaco são drogas que, apesar de todas as resistências, têm elevada aceitação social. Por isso, acabam sendo muito usadas. A acessibilidade, por exemplo, é o que está mudando a relação de nossa sociedade com o crack.

Assim que a droga ficou mais disponível houve uma explosão no uso, principalmente nos últimos três anos. O que confirma essa regra: preço e disponibilidade são cruciais para uma substância se alastrar. Quantos brasileiros são dependentes de álcool? Ter números sólidos e consolidados é difícil. Um levantamento de 2009, organizado por Ilana Pinsky e Ronaldo Laranjeiras, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), revela que 48% dos brasileiros entrevistados em suas casas disseram que não bebem ou não têm hábito de beber. Por outro lado, 12% dos brasileiros têm uma relação doentia ou abusiva com álcool. É um número bastante preocupante. No mundo todo esse índice circula entre 7% e 10%.

Em relação ao crack, estima-se que 1 milhão de brasileiros tenham relação frequente com crack. É um número expressivo, que ocupa espaço na mídia, mas o álcool deveria ocupar um pouco mais. O que precisa ser feito para melhorar o quadro? O mesmo que tem sido feito, só que numa atitude mais firme.

Com relação ao álcool, nós temos uma legislação clara: menores de 18 anos não podem beber nem fumar. Papai e mamãe tem um respaldo legal para dizer a seus filhos adolescentes: ‘vocês podem até beber, mas depois dos 18 anos’. O que a gente constata é uma visão muito suave em relação ao álcool e isso tem consequências. Uma mudança em relação à fiscalização dos pontos de venda impedindo a comercialização do álcool e um reforço na atitude familiar em relação ao álcool muda tudo.

Hoje temos mais de 1 milhão de pontos de venda relacionadao ao álcool no País. É muito fácil comprar bebida. Como ficou fácil comprar crack, o que não era há dez anos. É muito fácil comprar tabaco, mesmo contra lei. E é muito fácil usar bebida em ambientes de festa. Inclusive numa festinha de um ano de uma criança é comum que álcool esteja disponivel. Aí as crianças sob a vista condescendente do pai acabam ensaiando o uso. Estima-se que 30% dos pontos de venda de álcool não têm nenhuma autorização formal para estarem abertos. Os municípios podem simplesmente seguir regras sanitárias e assim fechar muitos pontos de venda de bebidas. Fazer como Diadema, restringindo o horário de abertura desses locais, pois diminui a ingestão de álcool, sexo desprotegido, busca por drogas, além de reduzir a violência relacionada ao álcool, tanto a interpessoal como a do trânsito. As medidas são interessantes e simples de aplicar.

Curiosamente o poder público recua. Por que o poder público não põe em prática essas medidas restritivas? Eu acho que a pergunta deveria ser: por que tantas coisas não são sustentadas em termos de fiscalização no Brasil? É uma peculiaridade de nossa cultura. Para sustentar o entusiasmo por atitudes de mudança social, é preciso ter muita vontade política, muita conexão. E realmente também tem a grande pressão das indústrias de tabaco e álcool para manter os pontos de venda abertos e possibilitar o crescimento do número de consumidores. Entre os 12% da população brasileira que abusam do álcool, há predominância de alguma classe social? Sem dúvida, qualquer condição clínica, da pneumonia ao alcoolismo, atinge com mais gravidade os estratos menos assistidos da população.

De uma forma geral no planeta inteiro, como os números de alcoolistas se repetem, acredita-se que seja um transtorno bem democrático. Mas em populações menos organizadas, bairros de periferias de grande cidades, onde a pobreza é mais intensa, os números são maiores. No entanto, no geral, é um transtorno democrático. Muitos usuários de crack começaram abusando do álcool? Começaram abusando de (drogas) lícitas, que levam às lícitas. O típico, no padrão contemporâneo, é o individuo iniciar com as drogas lícitas, levar esse hábito adiante e ir enriquecendo esse hábito também com as ilícitas.

Ele não abandona a maconha no trânsito entre o álcool e a cocaína e o crack. O uso de uma substância facilita o uso de outras. Por isso, no tratamento habitualmente se indica uma abstinência global, nem tabaco é bem-vindo para um indivíduo que queira se livrar de cocaína ou crack. Qual é o tratamento ideal para o dependente químico? O melhor tratamento é aquele mais personalizado. Tem algo curioso e perversamente frequente, que é o fato de que o indivíduo dependente químico, comumente, possui outro transtorno psiquiátrico concomitante: depressão, ansiedade, entre outros. É muito mais prevalente nesse grupo a ocorrência de outro transtorno. Quanto mais específico, melhor avaliado o indivíduo, melhor o resultado.

A Folha de São Paulo informou recentemente que o investimento federal no tratamento de alcoolismo diminuiu de 1998 para 2007. Como o senhor recebeu essa notícia? Essa é uma tendência flutuante sempre para pior. A desassistência na saúde no País é notavel, e não é só na área de saúde mental.

Na área específica da dependência química o poder público está num ritmo diferente da realidade. Ele já não dava conta dos usuários de álcool, então com uma droga nova isso se torna algo mais angustiante ainda. Como está em debate a expansão de drogas novas, a atenção do poder público é voltada para essas drogas e ele se esquece que o álcool continua atingindo gravemente 12% da população brasileira. Essa droga nova seria oxi? O oxi, antes dele o crack, em meio a isso tudo as anfetaminas modernas como ecstasy. Droga nova não falta nunca. O que falta na verdade é uma atitude de garantir a atenção na saúde mental, inclusive ao dependente químico.

Fonte: Folha de Londrina

Sobre ABVN

Associação Beneficente Vida Nova.
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